Orquestra Gulbenkian e solistas internacionais encerram 10.ª edição do Terras Sem Sombra em Moura

A igreja de São João Baptista, matriz de Moura, é o palco escolhido, a 28 de Junho, pelas 21h30, para o último concerto da temporada de 2014 do Festival Terras Sem Sombra (FTSS) que, desde Março, tem realizado a sua itinerância pelo Alentejo, numa estreita associação entre música, património religioso e salvaguarda da biodiversidade. A Orquestra Gulbenkian, a violinista Vera Martínez e o violetista Jonathan Brown, sob a direcção musical de Paul McCreesh e Pedro Neves, encerram a 10.ª edição do mais importante festival de música sacra do país, este ano dedicada a D. Fr. Manuel do Cenáculo, primeiro bispo de Beja e figura marcante da cultura portuguesa, por ocasião dos 200 anos da sua morte. Uma edição ambiciosa, que tem merecido os elogios da crítica e enchido por completo algumas das principais igrejas alentejanas.

“Instantes Infinitos: Mozart, Feldman & Mozart” constitui o mote desse repertório de excepção: Sinfonia em Sol menor K183 para orquestra e Sinfonia Concertante K364 para violino, viola e orquestra, de Wolfgang Amadeus Mozart, e o IV andamento de The Viola In My Life, para violeta e orquestra, de Morton Feldman. Toda uma aventura artística, a estreia integral, em Portugal, das quatro versões de The Viola in My Life (1970-1972), de Morton Feldman – as três primeiras versões foram apresentadas em Sines, a 7 de Junho –, fica, assim, completa neste concerto de encerramento. Mais uma vez, o Terras sem Sombra dá sinais de grande maturidade musical, pondo lado a lado, com evidente apreço por parte do público, a tradição e a contemporaneidade.

A Sinfonia em sol menor K. 183 data de 1733, tendo sido composta e estreada em Salzburgo. O ascendente que Haydn, nascido em 1732, teve sobre Mozart (o qual, em 1773, tinha apenas 17 anos de idade), manifesta-se, não só no uso do “modo menor”, mas também no recurso, tal como faz Haydn na 39.ª Sinfonia, a um quarteto de trompas, que contribui para a especial sonoridade desta obra, tanto do ponto de vista da instrumentação como da harmonia. Já a Sinfonia Concertante, também escrita naquela cidade austríaca, de notáveis pergaminhos musicais, pertence a um género musical que resultou da fusão do concerto a solo, do concerto grosso, do divertimento e da sinfonia.

Revela-se absolutamente notável a forma como as duas obras mozartianas dialogam com a música intemporal de Morton Feldman, bem patente no ciclo The Viola in My Life, iniciado em 1970 e concluído no ano a seguir, oferece um verdadeiro desafio para a escuta. O Festival Terras sem Sombra assume aqui a sua reconhecida vertente pedagógica, trazendo ao Alentejo novas experiências estéticas que se adequam, à perfeição, à atmosfera acolhedora e luminosa dos seus monumentos religiosos, famosos também pela excelência da performance acústica.

Fruto da parceria entre o Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja, a entidade promotora do Festival, e a Câmara Municipal de Moura tornou possível a presença, nesta cidade, da Orquestra Gulbenkian, que vive um momento alto, sob a direcção de Paul McCreesh e Pedro Neves, os seus novos maestros, e de dois solistas de craveira internacional, ouvidos em palcos de todo o mundo, Vera Martínez e Jonathan Brown, significa um passo no sentido da afirmação de um projecto cultural consistente. O Alentejo pode orgulhar-se, hoje, de fazer parte da primeira divisão da música europeia. 

Olivais, matos e grutas: no coração da Serra da Adiça

Outra particularidade do Terras sem Sombra reside no facto de ter abraçado a causa da conservação da natureza e, especialmente, da salvaguarda da biodiversidade, uma dimensão marcante na margem esquerda do Guadiana. O concelho de Moura é vasto em riquezas naturais, montados, matagais, estepes, rios e ribeiras. Neste repositório de biodiversidade, as “serras” constituem formações verdadeiramente excepcionais, apresentando relevos de rochas calcárias no seio de formações xistosas. Adiça, Álamo, Ficalho, Serra Alta e Malpique são apenas alguns dos nomes dos cumes destas serras calcárias, que vamos identificar e interpretar na paisagem circundante.

Na manhã do dia 29, domingo, a partir das 10h00, com a colaboração do Instituto de Conservação da Natureza e Florestas, da Liga para a Protecção da Natureza e da Associação para o Desenvolvimento do Concelho de Moura, músicos, staff, espectadores e membros da comunidade local participam numa acção de voluntariado para a defesa dos recursos biodiversos. Numa primeira etapa, irão observar as variações na flora dominante dessa área mourense, com a passagem das terras de xisto para os calcários serranos. Um excelente pretexto, ainda, para conhecer a excelência dos produtos regionais, cuja promoção tem sido um fio condutor do FTSS.

Haverá ainda oportunidade para um contacto com o projecto de preservação lince-ibérico e as acções de promoção de corredores entre manchas de olival de serra. Para os mais corajosos, propõe-se uma descida às grutas da Adiça, até à realidade subterrânea, pois as serras estão repletas de grutas e cavidades naturais e incluem um dos abrigos mais importantes do país para morcegos cavernícolas, abrigando colónias de várias espécies, tais como o morcego-de-ferradura-mourisco e o morcego-rato-grande. Pequenos gestos, como os empreendidos pelos voluntários do Festival, em ligação aos parceiros locais, ajudam a defender grandes causas e marcam a diferença.